Wednesday, June 21, 2006

Ritual


O som vinha daquele quarto. Que se localizava no nono andar de um prédio antigo na zona Sul do Rio de Janeiro.Um suave som de sax invadia os apartamentos vizinhos .Alguns já estavam até
habituados com o horário em que a música começava.Quatro da tarde, pontualmente.O clima contagiante do som transmitia uma enorme paz a todos.
Tarde de outono. Muito fria e com forte vento.Brigite convidou uma amiga para um chá em sua
cobertura.Quase chegada a hora do maravilhoso som.Que transbordava por toda parte.Suave e
intensamente começaram a tocar o sax.E as duas ouviam extasiadas aquela melodia.Quem tocaria com tanto sentimento? E por que a mesma canção no mesmo horário todos os dias, religiosamente?O prédio de Brigite situava-se na mesma direção daquele misterioso prédio.Só podia vir daquele apartamento com a janela entre aberta.Curiosas , as amigas se dirigiram a portaria do
mesmo, indagando ao porteiro sobre o som e o autor ou autora daquele espetáculo vespertino.O porteiro um senhor muito simpático, ficou meio sem jeito com os questionamentos das duas.Confirmou que vinha mesmo daquele apartamento que elas apontavam.E que há mais de um ano a sinfonia era entoada por um jovem que ali residia.Seu nome era Charles.Ele sofrera um acidente de moto e ficara paraplégico e cego.E desde então,vivia confinado em seu quarto, no apartamento que dividia com seus pais.E que todas as tardes,no mesmo horário em que ocorrera
o seu acidente: seus olhos se enchiam de lágrimas e ele tocava a sua canção favorita.Como num ritual de despedida ou de encontro com a própria vida.